
Um dos principais objetivos da imprensa é tornar a notícia clara ao leitor, de modo que ele possa compreender o recado de forma simples, clara, objetiva, direta e sem possibilidades de equívoco.
Há muitas maneiras de evitarmos a ambiguidade no texto jornalístico.
Vamos a alguns exemplos em que elas ocorreram, deixando o leitor zonzo com os vários significados possíveis.
Um exemplo recente: “Filho de empresário que traficava armas é detido”. Ora, não sabemos quem traficava a arma, e o pai, coitado, talvez leve a culpa por uma artimanha de seu filho – malvado e infrator... A frase, aqui, deveria ir para a ordem inversa, a fim de que não pairasse sobre o desconcertado pai a responsabilidade pela façanha de seu rebento: “Ao traficar armas, filho de empresário é detido”.
Também encontramos uma pérola dentro de matéria jornalística: “Lula oferta um chaveiro ao operário feito de prata”. Meu Deus! Após imaginarmos um homem todo revestido de prata, dos pés à cabeça, nosso raciocínio começa a nos mostrar que, na verdade, o chaveiro é que era feito de prata! (Assim seja!) Então, por que não se escreveu a frase com seu conteúdo no lugar correto, cortando-se uma palavra desnecessária: “Lula oferta um chaveiro de prata ao operário”?
Outra “excelente” frase foi colhida nas eleições do Rio de Janeiro: “O candidato pediu aos eleitores que votassem nele várias vezes”. Teria sido uma explícita tentativa de infringir o código eleitoral? Um eleitor só pode votar uma vez em cada candidato. Teria aquele político incitado o povo a cometer uma fraude? Novamente, basta o cuidado com o lugar das expressões na frase. Se a matéria não aludia, de fato, a um escândalo político-eleitoral, deveria ter sido escrita assim: “O candidato pediu várias vezes aos eleitores que votassem nele”. Pronto.
Certa vez, chocou-me descobrir suposta doença que parecia ser gerada em plena prefeitura. Havia este cartaz de saúde pública: “Participe da campanha contra a dengue da prefeitura”. Pensei: qual será o principal vetor de transmissão da “dengue da prefeitura”? O mosquito “Aedes Aegypt Prefeitus”? Eis uma organização lógica: “Participe da campanha da prefeitura contra a dengue”. Não, o órgão público em questão não é transmissor da patologia...
Ainda no campo da política (como há ambiguidades aí!), surgiu uma frase, no mínimo, curiosa. Era um anúncio de jornal, redigido perto das eleições de São Paulo. Dizia: “Fazemos faixas para políticos em promoção”. Imagine a celeuma do caso: “políticos em promoção”. Veio-me à cabeça: promoção? Quanto estão custando esses políticos? Deixando de lado a desconfiança de que os senhores candidatos estariam baixando seus próprios preços, a melhor maneira de se redigir a faixa é, mais uma vez, conseguida com a simples reorganização dos termos, e a retirada de um deles (“fazemos”), que é desnecessário. Resultado: “Faixas em promoção para políticos”. Isso evitaria um julgamento tão injusto por nossa parte (!).
Por outro lado, hoje, em alguns jornais, o recurso da ambiguidade tem até assumido certo, digamos, prestígio, sendo intencionalmente utilizado nas manchetes – sobretudo as chamadas “sensacionalistas” – como modo de chamariz a alguns segmentos de leitores. Outro dia, por exemplo, encontrei a seguinte instigante manchete de primeira página: “Homem, depois de meses e meses de gravidez, dá à luz no Mato e nasce um leão.” (sic) Paralisado de susto, comprei o jornal. Em poucas palavras, ocorrera o seguinte: uma determinada modelo brasileira, chamada Maria Torres HOMEM, depois dos normalíssimos nove MESES de gestação, teve seu filho no estado do MATO GROSSO, e a linda criança nascera em agosto, sendo do signo de LEÃO. Nada mais, nada menos...
Para finalizar, também no campo das ambiguidades intencionais, vi, recentemente, uma dessas frases de para-choque de caminhão dizendo o seguinte: “Não mexa com a mulher dos outros e conserve a sua direita”. Com todas as possibilidades de interpretação que podem surgir daqui... Desnecessário traduzi-las, não?
Em resumo, devemos tomar cuidado, quando, na linguagem jornalística, queremos transmitir uma mensagem ao leitor, pois esta não deve remetê-lo a várias interpretações.
Um abraço para todos.

